SÉRGIO MORO – Mais poder, mais responsabilidades

“A corrupção não tem cores partidárias. Não é monopólio de agremiações políticas ou governos específicos. Combatê-la deve ser bandeira da esquerda e da direita”

por MARCELO LAPOLA

Maringá, interior do Paraná, em algum dia do início da década de 1980. Acompanhado do pai em uma banca, o menino olha vidrado para a seção de revistas em quadrinhos. Homem- Aranha, Batman, Superman e outros estampados nas capas parecem sair do papel e invadir sua mente. Horas mais tarde, depois de ler algumas revistas compradas pelo pai, ele toma uma decisão que parece banal para essa idade: “Quero ser super-herói!”

Anos depois, o ainda jovem Senhor Meritíssimo Sérgio Moro deixa escapar essa paixão e inspiração. Em julho de 2015, em um evento em São Paulo, o juiz arrancou olhares de surpresa e até mesmo alguns risos da plateia ao responder sobre o que achava de seu trabalho: “Mais poder, mais responsabilidades”. A frase é de Ben Parker, tio de Peter Parker, o Homem-Aranha. Ao vivo, não tem os mesmos ares implacáveis e precisos que demonstra em seus despachos e sentenças. É uma pessoa séria, mas que de vez em quando deixa escapar aquele menino da banca de revistas da década de 1980. Pessoalmente, Sérgio Moro não tem nada de vulcânico, nem arroga o título de líder da Operação Lava Jato. “Sou uma peça dentro de um processo muito mais amplo.” De fato, é. Magistrado de primeira instância, Moro só age em resposta à rígida atuação de uma força-tarefa formada por procuradores da República e policiais federais. Amado por uns, odiado por outros, o fato é que a história do combate à corrupção no Brasil se divide em antes e depois de Sérgio Moro. Suas decisões têm repercussão internacional, já que é a primeira vez na história do país que vemos tanta gente endinheirada e poderosa atrás das grades. Mas, como ele mesmo diz, suas decisões “podem ser revistas em dois ou três tribunais superiores”.

Alçado ao status de celebridade nacional e “super-herói antipetista”, o juiz federal nascido em 1972, em Maringá (PR), diz que não tem prazer em condenar criminalmente ninguém. Responsável por mandar para a cadeia, ainda que temporariamente, dezenas de empreiteiros, lobistas e políticos, o jovem não se vê como uma referência nacional e até demonstra certo desconforto com isso. “Não sou uma celebridade.” Nas raras entrevistas que dá, não trata especificamente da Lava Jato pois alguns casos ainda não foram julgados e ele não quer ter sua decisão tecnicamente questionada. “Nunca tive o objetivo de prender o expresidente Luiz Inácio Lula da Silva”, afirma, sempre.

No mês passado, Lula foi condenado por Moro a nove anos e seis meses de prisão no caso envolvendo o tríplex do Guarujá. Porém, em sua sentença, o juiz afirmou que decretar sua
sentença de fato causaria “traumas” ao país, então permitiu que o ex-presidente recorresse de sua sentença em liberdade. Amplamente criticado, quase na mesma medida em que é admirado, Moro diz que não toma suas decisões movido a rancor ou revanchismo: “Não sou nenhuma besta-fera. Atuo de maneira reativa, mas julgo sempre de acordo com as provas que constam do processo e nem sempre consigo responder a tudo. Não se pode jogar uma pedra em todo cão que ladra”, diz, econômico com as palavras, outra característica sua.

Além de juiz federal da 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba, Moro também é professor de Direito Processual Penal na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde concluiu seu mestrado e doutorado. Especializou-se em crimes financeiros e tornou-se juiz federal em 1996. Nesta função, antes da Operação Lava Jato, trabalhou em casos como o escândalo do Banestado e a Operação Farol da Colina e auxiliou a ministra Rosa Weber durante o julgamento do escândalo do Mensalão.  Descendente de italianos do Vêneto, é filho de Odete Starke Moro e Dalton Áureo Moro, ex-professor de Geografia da Universidade Estadual de Maringá formado pela Unesp de Rio Claro, falecido em 2005. Seu único irmão, César Fernando Moro, é proprietário de uma empresa de tecnologia. Moro também cursou o programa de instrução de advogados da Harvard Law School em 1998 e participou de programas de estudos sobre lavagem de dinheiro promovidos pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos. É casado com Rosângela Wolff de Quadros, advogada e atual procuradora jurídica da Federação Nacional das Apaes, com quem vive em Curitiba e tem um casal de filhos em idade escolar. Ele pouco fala de sua vida pessoal. “Sou uma pessoa reservada, de hábitos simples”, limita-se, com um sorriso no rosto.

Desde que a Lava Jato surgiu, representantes do PT se adiantaram numa operação para tentar resguardar a atuação das empresas investigadas em obras públicas. O principal argumento utilizado era o de que, sem elas, a economia do Brasil poderia sofrer um retrocesso porque boa parte da infraestrutura brasileira que está em construção depende dessas construtoras. Porém, segundo Moro, não é o caso. “Vou usar uma metáfora não muito feliz, mas adequada. O policial que descobre o cadáver não é culpado por homicídio. Acho que uma série de problemas vinha se acumulando há muito tempo sem uma resposta adequada por parte de nossas instituições e, de repente, esses problemas apareceram de maneira bastante clara e o custo da solução deles é bastante grande”, argumentou. “Mas eu indago: qual seria o custo se esse esquema tivesse continuidade?”

Moro defende uma maior agilidade da justiça brasileira. “O Judiciário precisa punir mais rápido. Nosso sistema penal é muito moroso. Penso que os réus deveriam ser presos logo depois das decisões condenatórias em segunda instância.” Em agosto de 2016, em uma audiência na Câmara dos Deputados, Moro defendeu o fim do foro privilegiado, que  garante a autoridades julgamento em tribunais superiores. Na visão do magistrado, esse princípio “fere a ideia básica da democracia de que todos devem ser tratados como iguais”. Críticos de sua atuação como juiz federal o acusam de ser parcial e revelar casos envolvendo determinados políticos ou partidos. Sobre isso, Moro, nas poucas vezes que fala à imprensa, é categórico ao afirmar que as investigações e decisões são indiferentes a qualquer pessoa ou partido político. “O que é relevante é se há comportamento criminoso ou não e não a questão pública dessa pessoa”, diz. Sobre a questão de ser visto como alguém que teria resgatado a moralidade política no país, Moro é formal em sua resposta: “O importante é o trabalho institucional do Judiciário e de outras instituições. Isso fortalece a nossa democracia. Porém, de vez em quando o trabalho que tem sido feito, devido aos seus resultados, acaba por gerar algum sentimento de gratidão por parte das pessoas, e isso de maneira nenhuma pode ser reputado como algo negativo.

Mas o importante é a arte institucional”. Mesmo diante de tantos brasileiros que o admiram e o veem como um super-herói, Moro parece não se deslumbrar com pretensões a um dia se candidatar a presidente. “Não tenho a mínima pretensão de ser candidato a presidente ou nenhum outro cargo político. Sou um magistrado, simples assim”, finaliza, simplesmente. E quando a Operação Lava Jato terminar, Sérgio Moro já pensa no que vai fazer. “Quero tirar longas férias.” Afinal, diferentemente do Superman nos quadrinhos, ninguém é de ferro. •

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