AMOR E SEXO – Amor é amor, sexo é sexo?

Essa velha pergunta
traz respostas sempre novas

por MARCELO LAPOLA

Desde criança, muitas meninas – e meninos – são expostas a animações e histórias que contam como a garota comum viveu feliz para sempre depois que um príncipe a resgatou de uma vida de infortúnios. Dos contos de fadas migramos para os filmes, comédias românticas e até mesmo alguns dramas, que retratam que sexo e amor andam juntos. Querendo ou não, a gente sempre acaba construindo um amor ideal e achando que ele existe. Porém, como a realidade é sempre mais complexa que o sonho, nem sempre – ou melhor, quase nunca – amor e sexo andam de mãos dadas. Mas isso não é necessariamente ruim. Em um de seus mais belos artigos, o saudoso psicanalista Flávio Gikovate (1943-2016) afirma que muitas vezes o amor adulto é igual ao infantil. “Aprendemos que sexo e amor são componentes de um mesmo instinto. Não penso assim. O amor corresponde à agradável sensação de aconchego que sentimos quando próximos de uma criatura especial”, ressalta. “É exatamente o que sente a criança no colo da mãe, nosso primeiro objeto do amor: a dor derivada da sensação de desamparo e de incompletude que todos sentimos desde O momento do nascimento se atenua nestes momentos de reencontro. Isto nos dá prazer. O amor adulto é idêntico ao infantil”, acrescenta.

Mas, e o sexo? Este, tão reprimido em eras passadas, tão tabu ainda hoje para muita gente, nem sempre está associado ao amor, justamente por ser mais físico, menos abstrato. A agradável sensação de excitação que deriva da estimulação de certas partes do corpo tem a difícil missão de, por meio do pensamento racional, se sintonizar ao amor. Então dá para dizer que amor é mais espiritual e o sexo, mais fisiológico, certo? O desejo sexual é dirigido para muitas pessoas. Já o amor é dirigido a uma criatura única e especial. “Amor é paz e é interpessoal. Sexo é excitação e é essencialmente pessoal. O mais típico momento do sexo, o que corresponde ao orgasmo, é o mais solitário, ao contrário do que costumamos pensar: a excitação física é tão forte que ficamos totalmente voltados para ela, do mesmo modo que nos aconteceria se tivéssemos uma forte dor física. Não há lugar, nestas condições fisiológicas, para qualquer tipo de atenção ao outro”, analisa Gikovate.

Talvez por isso preferimos o sexo com alguém que amamos, pois depois poderemos nos abraçar e nos aconchegar para atenuar a solidão que acompanha o prazer sexual máximo. Para a também psicanalista especialista no assunto Regina Navarro Lins, por essas e outras “ninguém deveria se preocupar se o parceiro transa com outra pessoa”. Difícil,
não? Só de pensar nisso a gente já sente palpitação. “Acreditar que é possível controlar o desejo de alguém é apenas uma das mentiras do amor romântico. É comum alimentar a fantasia de que só controlando o outro há a garantia de não ser abandonado”, afirma – e provoca – a psicanalista.

Autora de diversos livros, entre eles A Cama na Varanda, Regina Navarro afirma que os tempos estão mudando num
ritmo aceleradíssimo, e o que antes era novo hoje é antigo, e vice-versa. “Os modelos tradicionais de amor e sexo não estão dando mais respostas satisfatórias e isso abre um espaço para cada um escolher sua forma de viver. Se quiser ficar 40 anos com uma única pessoa, fazendo sexo só com ela, tudo bem. Mas ter vários parceiros também será visto como natural. Penso que não haverá modelos para as pessoas se enquadrarem. Na segunda metade do século 21, provavelmente, as pessoas viverão o amor e o sexo bem melhor do que vivem hoje, encarando essa separação natural entre ambos”, analisa. “O amor é uma construção social; em cada época se apresenta de uma forma. O amor romântico, que só entrou no casamento a partir do século 20, e pelo qual a maioria de homens e mulheres do Ocidente tanto anseia, não é construído na relação com a pessoa real, que está ao lado, e sim com a que se inventa de acordo com as próprias necessidades. Esse tipo de amor é calcado na idealização do outro e prega a fusão total entre os amantes, com a ideia de que os dois se transformarão num só. Contém a ideia de que os amados se completam, nada mais lhes faltando; que o amado é a única fonte de interesse do outro, e por isso muitos abandonam os amigos quando começam a namorar”, enfatiza. Vivemos uma era do “eu” e, segundo ela, essa busca pela individualidade tem mostrado homens e mulheres se aventurando como nunca e com coragem em busca de novas descobertas.

“Reprimir os verdadeiros desejos não significa eliminá-los.” As palavras do psicanalista austríaco Wilhelm Reich podem ser uma nítida prova de que todos deveriam saber que o desejo sexual por outras pessoas constitui parte natural da pulsão sexual.

“A exclusividade sexual é a grande preocupação de homens e mulheres. Eles só deveriam se preocupar em responder a
duas perguntas: sinto-me amado? Sinto-me desejado? Se a resposta for ‘sim’ para as duas, o que o outro faz quando não está eles não lhes diz respeito”, diz. Impossível, não é? Mas talvez erre demais quem deseja o ideal de que a vida seja fácil. Doce ilusão. Vale a lembrança de Arnaldo Jabor, só para refletir: “Certos amores nem precisam de parceiro; florescem até mais sozinhos, na solidão e na loucura. Sexo, não – é mais realista. Nesse sentido, amor é uma busca de ilusão. Sexo é uma bruta vontade de verdade. O amor vem de dentro, o sexo vem de fora, o amor vem de nós e demora. O sexo vem dos outros e vai embora. Amor é bossa-nova; sexo é carnaval”. •

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